terça-feira, 10 de março de 2009

Degladiando

Fillipe Vilareína

Um poema tolhido numa época sóbria e até criativa minha - agora:

Degladiando

Caminho a passos largos
entre as serpentes e passo
(ao passo que me convém)
por sobre meus cruéis medos.

Medos justificados, eu sei,
porém indolentes.

Penso que não sou presa
na arena aberta que estamos nós.
- Sim, me incluo entre os venenosos.
Sim, me incluo na grande horda atroz.

Qual serpente no nicho alheio
que não morde e mata a rival?

Puxo-me à frente, na sordidez
que me dão este ar de metáforas,
e avanço sem medo de ser ouvido.
Sem medo algum de ser compreendido.

Afinal, metáfora sobre o mundo
num mundo que não existe
não chega a ser máscara.

Não xinguei ninguém aqui:
tudo são arenas e serpentes.

E todas são fantásticas.

Conselho

Fillipe Vilareína

Expulse seus demônios
Expurgue sua existência
Esmague seus medos

Apure sua alma...

Odeie suas fraquezas
Ojeriza será sua bandeira
Odeie quem te odeia

E não se leve por devaneios.

E o mais importante:

Nunca ouça nenhum conselho.

Lamúriazinha

Fillipe Vilareína

Sucesso na vida!
Mulheres idem!
Meus carros, meus sons,
minhas contas, meus dons,
minhas ações de mané.

Chicks for free!
Ou nem tanto, enfim...
sou pobre, sem talento
sem eira, nem beira
e durmo na esteira
na mão, sem mulé...

Maria gasolina,
maria chuteira,
maria pandeiro,
maria guitarra,
marias sem fim...

Eu sou só poeta!
Sem grana ou graças...
Será que no mundo
há maria caneta
- que queira palavras -
e que seja pra mim?

Aos umbrais do dicionário

Fillipe Vilareína

Versos saudosistas, d'algum passado que não vivi:

Aos umbrais do dicionário

Quando criaram os versos
éramos vagabundos, entusiastas
do ócio sublime, regado à palavras.

E saíamos sem medo
pelas ruas, vivendo sem culpa
ou idolatria. Sorvendo os cantos
que faziam ao nosso redor

(e a vida sem eles era uma agonia...)

Pensávamos ser poderosos,
pois dominávamos o verbo
- a primeira criação -
que nos fora ensinada sem
academicismos ou honrarias.

Era apenas a arte de jogar ao vento
palavras, nomes, ironias...

Era apenas o costume de falar
aos porcos o que era majestoso

Era o costume simples , sem pudores
da poesia.